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A Bala de Prata do Bem

outubro 19, 2010

Manifesto dos intelectuais pró-Dilma foi a bala de prata do bem de sua campanha

Poxa, falar que algo é “do bem” hoje em dia já ficou pegando mal graças à novilíngua do Serra. Ele conseguiu inverter a metafísica medieval, na qual o Mal era somente uma privação do Bem e inventar um Bem que depende de caracterizar algo como um Mal primeiro, um Bem que é só a ausência de um (suposto) Mal. A campanha da Dilma até que tentou, no primeiro turno, ficar só na agenda positiva, mas acabou arrastada para esse tipo de debate com a quebra das expectativas de vitória antecipada. Embora eu entenda que era preciso bater de volta e até tenha defendido uma Dilma mais ao estilo da famosa resposta ao Agripino [ela ficava muito mais simpática com aquele look mais nerd!], fiquei com medo pela parcela do eleitorado que tem nojinho de uma discussão mais acirrada e também porque o medo a que o Serra apelou, o de que comunistas sanguinários viriam à noite raptar suas criancinhas, é mais reptílico do que o medo da volta das privatizações. Em todo caso, a tática deu certo pois, em um primeiro momento, estancou a perda de votos da Dilma e depois ampliou a vantagem dela na última pesquisa Vox Populi. Mas o risco era o PT achar que overdose do remédio que fez algum efeito curaria de vez o paciente e, além disso, ainda era preciso avançar sobre aquela parcela do eleitorado da Marina que estava carente de utopias, emoções na política, de um discurso falando mais do futuro, tanto quanto era preciso motivar o eleitorado fiel que estava com saudade das campanhas históricas do Lula.

O ato de ontem no Rio, dos artistas e intelectuais a favor da Dilma, foi o que a campanha da Dilma precisava para mostrar que dá para ganhar eleição inspirando o eleitorado e não o aterrorizando. Chico Buarque, que tinha falado pouco até agora, abriu a boca de improviso somente para acertar na mosca: “[o governo Lula foi] um governo que não corteja os poderosos de sempre, não despreza os sem-terra, os professores, garis. Um governo que fala de igual para igual com todos, que não fala fino com Washington, nem fala grosso com a Bolívia e o Paraguai“. O discurso do Leonardo Boff poderia ocupar um programa eleitoral inteiro e a eleição estaria praticamente ganha. Como disse o @fabioleal no TT: “Bota Leonardo Boff nos 10 minutos do horário eleitoral que acabou a eleição: é 90% votando em Dilma e 10% de babaca sem coração

E a Dilma fez um dos melhores discursos que já a vi fazer, apesar de um bocado longo e de ter insistindo nos assuntos menos, digamos, inspiradores da campanha, como privatizações e pré-sal. Mas, com uma boa edição, teve grandes momentos, como quando falou que tinha orgulho das derrotas que sofreu durante a ditadura porque foram derrotas na luta certa, quando disse que tinham conseguido pela via democrática fazer a revolução que sonhavam nos anos 60 ou quando falou que não queria se orgulhar só de indicadores como o PIB porque o que importava era distribuir essa riqueza pro povo, porque “ninguém vai respeitar um país que não cuida do seu povo” (ok, isso foi copyright Lula total…). Todo esse material deu para a campanha da Dilma uma metralhadora de balas de pratas do bem, propositivas, inspiradoras. [Ou, para deixar a metáfora mais adequada, já que balas de pratas devem ser usadas contra lobisomens e não vampiros, vai ser o alho capaz de deter as forças do Mal. Tá, “bala de prata” é uma metáfora mais sonora que “o alho”. Tá, tergiversei…]

O tema do aborto, apesar de ficar para sempre como uma bela mancha das eleições 2010, parece ter sido domado, tanto pela resposta o-ataque-é-a-melhor-defesa da Dilma no debate da Band quanto pela hipocrisia da Mônica Serra. O tema das privatizações já me parece ter ganho o que podia, ao menos nessa forma geral que a Dilma o está evocando. Só renderia mais se ela entrasse no detalhe de como as privatizações foram feitas, dos financiamentos não pagos do BNDES, das subprecificações etc, senão fica vulnerável às respostas que Serra  já deu. Mas a vantagem nas pesquisas já voltou a aumentar. Agora é a hora de dar novamente um tom positivo à campanha. Ah, e falar mais de amor, que foi a coisa mais inesperada desses últimos dias! A primeira vez que eu vi a palavra tão citada em uma campanha eleitoral! Essa mulher tá in love!

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