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Um pouco de Metafísica para relaxar

outubro 20, 2010

Dando um tempo de eleições. Daqui a pouco vou para a Universidade dar a aula continuando a discussão bem básica sobre análise de argumentos. Meu plano para hoje é usar o famoso Problema do Mal, talvez o mais famoso argumento contra a existência de Deus, avançando, portanto, além das refutações dos argumentos a favor, que não produzem mais que um empate. Em resumo, o argumento, que vem lá de Epicuro, é assim: se Deus é onipotente, ele pode evitar todos os possíveis males e se é o supremo Bem ele deve evitar todos os possíveis males, deve querer o melhor; mas há o Mal no mundo, portanto, ou não há um ser capaz de evitar o Mal ou há um ser onipotente, mas ele não está nem aí para que suas criaturas se lasquem; ora, ambos os casos contradizem a definição de Deus, portanto Deus não existe. A escolha desse argumento para uma aula de lógica basiquinha, claro, é duplamente motivada: a estrutura lógica do argumento é muito boa para analisar, existe uma extensa discussão histórica tratando de todos os detalhes de cada premissa, mas também usar um argumento desses como exemplo em assunto supostamente neutro como lógica ajuda a fazer um contrapontozinho à doutrinação religiosa que esses meus alunos sofrem o tempo todo. [Outro dia perguntei para uma aluna se ela achava que o Universo tinha aproximadamente 14,5 bilhões de anos, como dizia as datações científicas ou cerca de 6 mil anos, como dizia uma leitura literal da Bíblia e adivinhem o que ela escolheu…] Acho que é o mínimo de responsabilidade social que tenho como professor, ainda mais em vista do estrago que a religião tapada realizou nessas eleições.

A resposta mais clássica ao Problema do Mal, que está na ponta da língua mesmo dos alunos mais doutrinados pela religião, é que o Mal surge do livre-arbítrio, cuja existência, no final das contas, seria um Bem maior. Essa saída tem diversos problemas, é “um muído”, como na gíria daqui do Sertão, uma bagunça. Mas não vou nem me deter em respostas como a que evoca a possibilidade lógica de que todos agentes livres tivessem escolha, mas escolhessem livremente não fazer o mal. Uma das melhores respostas que vi recentemente, acho que no livro do Mackie, se pegava ao fato de que o papel da liberdade na objeção ao argumento ateu é o de uma limitação da onipotência divina: Deus não pode impedir o Mal porque o homem é livre. Se Deus pudesse interferir na ação humana, evitando o Mal, e não o faz, não seria benevolente. Então, se Ele não interfere, é porque não pode mesmo. Mas, continua a objeção, foi o próprio Deus que criou o homem livre! E aí está o ponto central:  chegaríamos dessa maneira a uma situação similar ao famoso paradoxo “Deus pode criar uma pedra tão pesada que ele não a possa mover?”. A existência de uma criatura, no sentido “técnico”, cujas ações não possam ser controladas pelo Criador onipotente seria tão paradoxal quanto a da pedra lá.  Ora,  a resposta standard ao paradoxo da pedra é: não, Deus não pode criar essa pedra, porque sua existência é paradoxal, contraditória, e a onipotência divina significa somente que Ele pode criar tudo que é possível. Portanto, o mesmo valeria então para essa liberdade total, imune ao poder divino. A saída ao Problema via livre-arbítrio fica, assim, bloqueada e a gente pode recolocar o Problema original: ou o homem não é livre ou, se é, essa liberdade não está imune ao poder divino, de modo que Deus poderia interferir nas escolhas e evitar o Mal e, portanto, se não evita, é somente porque é um grande sacana. [Na formulação clássica do Problema isso contradiria a definição oficial, teológica, metafísica, de Deus e mostraria que Ele não existe, mas, cá entre nós, qualquer um que leia dez minutos do Antigo Testamento concordaria com a conclusão de que ele é mesmo um sacana…]

Acho que funciona, e vocês?

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7 Comentários leave one →
  1. Luciano Silva permalink
    outubro 20, 2010 2:21 pm

    Na minha última aula falei sobre Descates e, quando chegamos na 4 meditação, esse problema veio à tona. Concordo que seja por aí mesmo; só como detalhe: eu costumo concluir a impossíbilidade da existência de Deus nos dois casos ; pois, seria contraditório a existência de Deus e do livre-arbítrio. Em outras palavras, um Deus sacana (aceitando a existência do livre-arbítrio) e contraditória com a definição (pelo menos religiosa) da benevolência Dele. Daí as opções: Deus não existe em nenhum dos casos; o homem possui livre-arbítrio ou o homem não possui livre-arbitrio; (o que nos leva a outras questões Metafísicas e outras respostas).

  2. outubro 20, 2010 2:34 pm

    Cisneiros, gostei do texto e da imagem, hehehehe, christian rock SUCK! Quanto ao argumento, lembrei da posição de Descartes nas Meditações, que também é bastante interessante. Não me recordo das passagens na ponta do lápis (do teclado), são anos sem ler o genial, mas se não me engano na quarta meditação há duas pistas: a primeira diz que ainda assim Deus poderia ter criado o mundo sem o Mal, o que me parece é justamente o que Mackie não quer, pois a liberdade está ligada a onibenevolência. O argumento do Mackie parece estar de acordo com a segunda pista que Descartes deixa (agora é que não lembro se esta é na quarta ou na sexta meditação) que o “diverso” é melhor do que o “mesmo” e por isso Deus criou um mundo no qual há também o Mal. O que nos remete ao final do seu texto e à conclusão que compartilho contigo, que esse Deus só pode ser um sacana (um fdp, pardon my french), pois o paradoxo também vale para a liberdade total e Deus poderia, como citado na primeira pista e no seu texto, evitar o Mal e o loop é iniciado… Como diz um conhecido de Edinburgh, “At a push, I’m willing to renounce Satan, even though he’s been very good to me.” Gostei do “Beco3”, volto em breve para outras caneladas 🙂

    • Leonardo Cisneiros permalink*
      outubro 20, 2010 3:44 pm

      É, fica em loop. Deus só não é um fdp mesmo porque é incausado e não tem mãe, mas, ah se tivesse… ahahahaha
      Que bom aí que vocÊ gostou. Melhor ainda do que voltar para as caneladas é se você quiser oferecer suas canelas, quer dizer, escrever um texto aí para polemizar. A idéia é essa mesmo. Se lembra que no Beco 3 for real volta e meia rolava umas garrafas voadoras? Vamos tocar fogo na bagaça!

  3. Luciano Silva permalink
    outubro 20, 2010 2:47 pm

    …ou, via Spinoza: Deus não poderia intervir na ação (livre) do homem, modificando aquilo que desde sempre ele saberia e, como tal, já teria resolvido no ato de criação… em outras palavras, é contraditória a idéia de fazer algo inperfeito e voltar depois para corrigir com a potencialidade divina da oniciência e da onipotência… ou seja: a biblía é um texto mítico, no mínimo. E é por isso que eu prefiro Homero, ou os Vedas, ou os Nórdicos… rsrsrsr

    • Leonardo Cisneiros permalink*
      outubro 20, 2010 3:50 pm

      Pô, mas pior é que o mito tem menos confusão. O problema é quando o desocupado do São Paulo foi bater em Atenas para incomodar os filósofos e daí se tentou fazer uma teologia racional. Isso porque o paradoxo pode se esvair se você joga fora a bondade absoluta, a onipotência (ser o ser mais potente não implica onipotência, só uma coisa comparativa, mas mesmo assim é complicado) ou, o atributo do qual não falei aí, a onisciência, ou se você adota umas soluções menos clássicas. Não duvido que um ou outro teólogo mais moderninho tenha aceito algo assim. Bem, pra dizer a verdade, eu acho a Bíblia uma bagunça pior ainda: enquanto Jahveh salva Isaac no último momento (dizendo para Abraão: “pegadinha do Mallandro!!”), ele deixa o general lá, cujo nome esqueci, matar a filha só porque tinha prometido sacrificar o primeiro ser vivo que passasse na frente caso Deus o ajudasse a vencer a batalha. Ah, a Bíblia devia ser proibida para menores!

      • luciano silva permalink
        outubro 21, 2010 2:25 am

        …deveria ser proibida para menores e, principalmente, para os maiores, pois estes são os que podem agir a-moda-caralho- e justificar suas ações com o injustificado (o livro sagrado)! Imagine se eu levasse uma guerra contra sei lá, os vascaínos, por exemplo, e justificasse essa guerra santa no hino do américa (que eu posso considerar como sagrado)… a idéia e a mesma! E o pior é constatar que desde Paulo, talvez o verdadeiro canalha dessa historia, centenas de milhares morreram, morrem e morrerão aferrados a uma idéia tão bossal…

        Xenófanes estava certo: se os cavalos tivessem deuses, esses deuses relinchariam!

        No nosso caso, no cristianismo e suas variantes, não é o tal do deus que relincha, mas os fiéis! rsr

  4. Luciano Silva permalink
    outubro 20, 2010 2:48 pm

    ops, errata:” imperfeito”!

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