Skip to content

Estranhezas do ensino da Metafísica

outubro 22, 2010

… Um belo dia, em uma turma do sexto ano (antiga quinta série), um grupo de moleques com, no máximo, 10 anos cada, me cercou na hora do intervalo, e atacou: tio, se Deus criou tudo, quem criou Deus (isso logo depois de uma aula sobre os mitos gregos)?

Pensei: ferrou! Se dou a resposta tomista, eles não vão engolir! A coisa só vai piorar, tipo: tá bom, uma causa que não é causada!, e sairiam rindo. Se vou pelo lado oposto, seguindo a tradição cética, ou até mesmo Nietzsche, a escola seria notificada pelos pais: professor de filosofia corrompe nossos filhos, alegando ser Deus uma invenção da cultura ocidental, etc…  E cá entre nós, esse papo de cicuta não pega bem: as pessoas comentam, a gente fica malvisto… rola maior problema!

No mesmo dia, à noite, para os alunos da pós- graduação do curso de docência (isso mesmo, docência!), mal iniciei a explicação da crítica humeana ao princípio de causalidade e um senhor ruborizando levantou a mão, ficou em pé, e começou uma pregação (o cara era pastor): esse Sr. “Humi” não sabe o que tá falando… qualquer um que consiga olhar cinco centímetro a frente dos olhos saberá que a natureza foi criada por uma força sobrenatural… que é Deus. E blá, blá, blá,blá…

Pensei: ferrou! Se apresento a crítica de Hume com o mesmo fervor, vai parecer disputa de boteco; ainda mais que a turma, em sua maioria, o apoiou. Entretanto, eu tinha que continuar a aula…

E aí, amigos professores de Filosofia, como sair desses problemas (pedagógicos rsrsrs) do ensino da Metafísica?

Anúncios
9 Comentários leave one →
  1. Leonardo Cisneiros permalink*
    outubro 22, 2010 1:03 pm

    Criança é muito melhor filósofa, ne? Se desse para começar desde cedo sempre.. Pior que é um problemão mesmo e tão simples que uma criança consegue formular, mesmo que depois, durante o curso de filosofia, a gente aprenda a desmerecê-lo e dizer esse “Deus é uma causa incausada, a objeção não faz sentido”. Mas ela faz sentido sim: se você pode postular uma exceção ao princípio de que tudo tem uma causa para colocar um ser como causa sui porque não colocar o próprio Universo como causa sui? O salto da contingência de cada elo da série causal de eventos não implica a contingência da série como um todo. É uma falácia da composição.
    Eu sei que é complicado ensinar às crianças já todo o arsenal no Nietzsche & Cia, mas também não dá para só confirmar as crenças prévias. Não sei muito como fazer. O que eu faço aqui, com aluno de primeiro período de universidade, é fingir que estou só analisando os argumentos como um exercício e saio mostrando os problemas. A conclusão fica meio left to the reader. Agora, na graduação e mais ainda na pós, se não souber argumentar e fizer feito esse pastor aí, é zero. Em alguns casos, quando tem alguma chance de render um bom ensinamento, eu acabo mordendo a isca e desviando dos planos da aula mesmo.

    • luciano silva permalink
      outubro 22, 2010 2:28 pm

      Perfeito! Se não fosse assim, os dogmáticos não se preocupavam tanto em refutar ou desqualificar os céticos… ora, se o tropo cético “redução ao infinito” não funciona, porquê eles (ver Aristóteles X Platão: argumento do terceiro homem, por exemplo) fazem uso indiscriminadamente dele? Quanto ao pastor, eu não dei zero, mas umas belas porradas: ele deve ter, ainda hoje, pesadelos com Hume! rsrsrs

      • Alessandro permalink
        outubro 22, 2010 3:49 pm

        Por isso, dou aula de lógica…. o máximo que escuto é: “Professor, por que a implicação material é falsa somente quando o antecedente é verdadeiro e o consequente, falso e verdadeiro, caso contrário?” .
        “Ora, porque eu disse que é e pronto” – respondo e fim de papo.

  2. Jampa permalink
    outubro 22, 2010 3:22 pm

    Quem não entende de metafísica (nem de aulas) pode entrar no papo?

    • Leonardo Cisneiros permalink*
      outubro 22, 2010 5:13 pm

      hahaa, Pula aí, Jampa, aqui é boteco! Você chega sem saber metafísica e depois de uma grade de cerveja sai escolado! E ainda tem política por aí. Divirta-se!

      • Jampa permalink
        outubro 22, 2010 11:13 pm

        Rapaz… oa, eu, como disse, não sou filósofo. A metafísica – apesar de meu antigo departamento (onde se adora discutir ontologia social)-, passa longe do foco de minhas preocupações. Mas eu tenho opinião de boteco para dar que vai um pouco no sentido do que Leo falou, mas de uma outra perspectiva. Numa aula de introdução o que importa mais, sempre, é o modus operandi… (darei exemplo mais abaixo). Botecando de quem vê de fora, eu acho que a dificuldade de sair desses problemas pedagógicos existem de maneira mais intensa para a filosofia, porque a disciplina se tornou muito escolástica, no sentido de investir muito no despistamento lógico de seus próprios ploblemas, para falar como Montaigne, fazendo do trabalho filosófico “autoglossagem” entre pares, esquecendo quase que por completo o aspecto mais mundano do trabalho filosófico, que é de fato seu modus operandi, terminando assim por desvalorizar- em nome de proezas intelectuais da genialidade por trás de um nome próprio pomposo: Kant, Helgel, Hume… bem, vocês conhecem bem mais do que eu, vejam só – o próprio método rigoroso do pensar…
        Na minha disciplina, a sociologia, isso acontece também. E acho que uma maneira de contornar o problema é voltando ao propósito mais básico e elementar do que é o fazer sociológico. Tipo: ao invés de debater a teoria de Weber ou Durkheim sobre processo de diferenciação social, por exemplo, tratar de questões ligadas aos procedimentos de inteligibilidade sociológica mais diretamente atrelados às técnicas de pesquisa social. Dito dessa forma parece coisa mais difícil, mas concretamente não é. Você professor, familiarizado com noções básicas de estatística, pode usar noções básicas de proporção, para ensinar como a sociologia, através da estatística, consegue em certo sentido objetivar aspectos da vida social. Quantificações simples podem sugerir toda uma reflexão sobre a relação da sociologia com construções objetivantes de fenômenos sociais. Voltando-se para o modus operandi da sociologia, as questões ficam mais interessantes, acredito. Assim como penso em minha já longa botecagem, que refletir sobre metafísica deve ser mais instigante quando fazemos da lógica filosófica um instrumento versátil de sua própria pedagogia. Foi assim que li alguns textos de Wittegenstein, ele parecia brincar de levar a sério a lógica que ele tanto fez para derrubar… Se muito viajo, é só desconsiderar depois das cervejas o que foi dito.
        Abraço

  3. outubro 22, 2010 3:30 pm

    Lu,

    Para as crianças eu diria um sonoro “não sei” e acrescentaria “quando você descobrir me conta”, porque elas estão nascendo “quanticas” e as antenas verdes da molecada vai muito além das nossas. Essa coisa aqui que a gente bota bombril para pegar no tranco… Quanto aos pais, é dureza, meu caro. Eles são a prova cabal de que a liberdade de pensamento não combina com a instituição escolar. Revolução ou revolução, como é difícil mudar…

    Já sobre o pastor, é caso perdido, meu amigo, para soltar de Deus, o cara vai ter que se apegar no Demo, o que dá na mesma em termos filosóficos e não o bota para pensar por si mesmo. Já que ele vê Deus na natureza, leve uma orquídea daquelas bem abertas e peça para ele descrevê-la. Vai ser no mínimo divertido e uma nova concepção do barba branca pro mundo filosófico!

    Brincadeiras à parte, amei o espaço.

    beijo
    Tati

  4. Rogerio Martins permalink
    outubro 22, 2010 5:20 pm

    Eu tentaria uma abordagem física, talvez uma AK 47 !!! KKKK

  5. Rogerio Martins permalink
    outubro 22, 2010 6:58 pm

    No caso das crianças levaria a questão para a sala de aula e faria um debate com a turma.
    Já no grave caso dos pós-graduandos eu daria uma aula sobre ética !

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: