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O Problema Lógico da Terceira Via

outubro 22, 2010

Já pedi ao amigo François, filósofo, HQ fan e homem da lei, para escrever aqui, mas ele disse que já se enroscou em redes sociais demais para ter tempo para mais uma atividade virtual. Mas lembrei-me outro dia de um texto dele, apresentado em algum colóquio, e tirado da sua pesquisa de mestrado, sobre o problema dos juízos infinitos em Kant. O juízo infinito é um juízo no qual, ao invés de a negação estar sobre o verbo, como em “Serra não é bonito”, ele está sobre o predicado: “Serra é não-bonito”. Nosso amigo Kant trata essas duas formas como tendo sentidos diferentes, o que não é de todo óbvio, principalmente para a lógica moderna. E tentar entender o que que estava passando pela cabeça do virgenzão de Königsberg ao falar isso ajuda a entender um bocado de pressuposto de sua filosofia e foi daí que o François fez uma ótima dissertação, na qual sou adoravelmente criticado na ótima companhia da Longuenesse e do Lébrun. Mas, enfim, um dos problemas é entender o estatuto desse predicado negativo. O infinito que dá o nome ao juízo tem nesse caso a conotação de indefinido, indeterminado. O exemplo que o François pegava do Seinfeld, se eu me lembro bem, era do cara que tinha cansado de sanduíche de atum e agora queria um sanduíche de não-atum. Podemos falar também de alguém que tenha cansado ou não goste de camisas vermelhas e agora queira usar uma camisa não-vermelha, não uma somente amarela ou somente azul, mas ela quer a negação completa do vermelho. Que cor é essa?

Bem, foi nisso que eu pensei quando comecei a ver as pessoas que votavam na Marina ou no Plínio somente por enfado com tudo-isso-que-está-aí, para ser do contra simpliciter ou procurando a mágica “terceira via”. A pirralhada aí sabe que era assim que FHC se apresentava lá nos anos 90 junto com Tony “Capacho do Bush” Blair? Terceira Via, o mesmo termo que a Marina usou agora. O resultado foi esse voto pós-moderno na Marina, juntando sob uma mesma candidatura aqueles ecologistas que estão tão focados na causa que não se incomodam em se aliar com o DEM, provavelmente o partido com o maior número de latifundiários, o povo moderno-cabeça-cool do Posto 9 e o pessoal religioso.

Serra e Dilma se parecem em muitos aspectos mesmo, alguns bons, outros ruins. Dentre os ruins estão as alianças, mas aí Marina que tivesse provado que sua eleição colocaria Kant nos corações dos homens e ela conseguiria governar sem alianças. Mas eles também se parecem na defesa de certos princípios comuns, como o receituário básico para controle da economia, a defesa da estabilidade econômica, responsabilidade fiscal. (Bem, pelo menos até antes de o Serra prometer essas compras de votos com aumento do mínimo) E isso é bom. ISso é sinal de maturidade da política brasileira e um sinal que a gente está conseguindo andar pra frente sem derrubar tudo o que foi feito antes. Qual seria a revolução a ser feita diante do mínimo que os dois candidatos compartilham? Qual o grande modelo alternativo? Qual a sua utopia radical, defensor do não-tudo-isso-que-está-aí?

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6 Comentários leave one →
  1. luciano silva permalink
    outubro 23, 2010 5:52 am

    ótimo texto, Cisneiros! Quanto as suas perguntas (retóricas, eu sei rsrsr), não existem respostas; pelo menos, revolucionárias. E isso porque a chamada terceira via, quando surgiu, não passava de um engodo ideológico para reconfigurar e/ou adaptar o mundo as novas facetas do capitalismo- creio eu, embora sem muita certeza rsrs. Agora, o que o povo marina-pastores-moderninhos criados com ração alimentar (nova moda da zona sul carioca), ou como eu nomeio ( ecobobos-decrépitos-esquizofrênicos) chamam de terceira via eu não sei e desconfio serramente (e isso não é ato falho!) que eles também não sabem… mas imagino que seja algo do tipo: quero que todos, incluindo as coisas verdes, desfrutem de tudo que o capitalismo pode oferecer… esquizofrenia pura querer, mesmo que inconscientemente, equacionar capitalismo e maioria, quem dirá todos… ou seja: como diz o pessoal daí: é um muído só!
    Disso tudo, um único fato: o PV conseguiu o que queria ao recrutar a ecobobinha marina, isto é, crescer nacional e regionalmente!

    • Leonardo Cisneiros permalink*
      outubro 23, 2010 1:53 pm

      Dizem que o programa econômico dela era mais liberal que o do Serra!

      • luciano silva permalink
        outubro 23, 2010 4:50 pm

        pois é… o pior é que ela, coitada, diferente da Dilma e do próprio Serra, teve que engolir às pressas um programa liberal imposto pelo PV, maquiado de verde (meio ambiente e blá,blá,blá)… se o PV do revolucionário da tanguinha de crochê tivesse afinidades políticas, no mínimo, progressistas, ele jamais iria liberar o apóio ao PSDB: o Gabeira, aqui no Rio, está com o merda do Serra!

  2. outubro 25, 2010 12:24 am

    Cisneiros, está muito gostoso de ler e comentar neste blog, mesmo sendo uma “anta” em filosofia! O Luciano que já me explicou Spinoza bêbado e no meio do samba sabe que é dureza… Mas tô me sentindo poderosa aqui hoje, pensando no Kant a partir dos exemplos que você deu. Muito boa a proposta de vcs! Vida longa ao Beco! Beijo, Tati

    • Leonardo Cisneiros permalink*
      outubro 25, 2010 2:57 pm

      Tati, volta sempre! Quem tenta entender Spinoza no meio do samba tem que ser uma ótima companhia! ahahaha
      Beijos, Léo

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