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Janúzia

outubro 26, 2010

Uma das formas mais ardilosas de se ganhar um debate é desqualificando o adversário em detrimento dos argumentos. Alguns jornais de São Paulo investem-se de argumentos de caráter preconceituoso quando associam o voto em Dilma à má escolaridade do Nordeste. Os nordestinos não seriam qualificados para elegerem alguém. Eles estariam fadados à manipulação por um prato de comida, argumentam aqueles jornalistas.

Jornais e Canhões
Érico Andrade.

Depois de ler o texto do Érico, lembrei de um conto antigo: Janúzia. Decidi postá-lo aqui, por um único motivo: as pessoas manipuláveis por propagandas políticas, jornais nacionais, ou até mesmo um prato de feijão são, antes de tudo, humanas e, enquanto tal, irredutíveis a cálculos estatísticos… têm, assim como qualquer “intelectual”, sonhos, anseios, realidades…  não nos esqueçamos disso!

Janúzia

Maciel entrou venda adentro, desanimado. Postou-se no balcão, mãos sujas, olhos pelos cantos, e ninguém para lhe preencher o tempo. No reboco das paredes, e nos degraus da escada, só a lembrança da época em que Janúzia vinha lhe visitar, como quem não queria nada, e saía, satisfeita, com os poucos confeitos que conseguia furtar quando ele, disfarçando, virava a cara para o outro lado. Outras vezes saía da sala, voltava à beirada da rua, olhava ao redor e entrava fazendo barulho com a sola do sapato. A pequena sorria, com as mãozinhas nas costas, passava à soleira e desembestava rua afora.

No corpo, vestido de chita. Retalho do corte dado a Amerinda, sua mãe, anos antes. Foi o pago pelas liberdades que teve com a quenga. No início, o tutano recusou a idéia como se recusa o diabo na encruzilhada. Por fim, Maciel dividiu-se: de um lado, a resolução de uma pendência do corpo; do outro, Antonia, moça direita, filha de delegado. Um senhor partido. Não podia danar-se aos olhos do povo. Mas confronto é confronto e não tem conversa: o lado de maior volume e preparo vence. Amerinda, sem porquê, enrabichou-se pelo galego: a luta tornou-se desigual. Denguices, afagos, coxas roliças. Sem pressa, o nó se engatou. E a morena, no mais, de tão faceira e gentil, nem parecia mulher da vida. De dose em dose ela entrou no meio dos seus afazeres e, com voz doce, pedia a cana do dia, e Maciel esqueceu-se da vida. Vivido, aventurou-se, e só. Daria em nada. E Amerinda partiu com homem do Coronel Flores. Entocou-se na fazenda Cruz Alta. Deixou a vida às outras. Virou direita, disseram. Maciel, na mesma, não desgostou da idéia. Era falar com Antonia, aprumar o assunto.

Passou-se tempo, e Amerinda voltou com Janúzia enganchada no colo. Sensação: todos queriam saber-lhe o nome, o porquê de deixar Cruz Alta, voltar à vida. Ela respondia, enquanto, à talagada, bebia pinga de mandioca, que não era mulher de prender-se a um canto de terra, a homem nenhum. E ria, desconversando. A menina herdou-lhe a simpatia, e uns olhos grandes, pretos, de conquista, que agradavam.

Menos Maciel. Galego de cálculos, e malícias, pressentia cheiro de acusação e matutava o defender-se, no caso de especulações: não era ela a sobe garupa, a dos mascates e homens da roça? Não era ela que tinha se encangado com o capanga dos Flores? Por que logo ele, só um a mais, seria o pai? Protegia-se. Resguardava-se. Mas as acusações não vinham: respeitavam-lhe os fiados. Mas à noite, no canto da venda, onde dormia, vez e outra, não dormia. Dúvida não aceita máscaras nem auto-engano. Impõe-se na busca, exige resposta, não cala no peito: espinho cravado, engrossando raiz.

E Janúzia miúda, todavia… Amerinda seguia à lida. A rotina simples não esperneia. Vai. Agrada ou não, impõe-se. E os ciclos vêm nas chuvas e vão-se na seca. A rotina mesma. E Janúzia miúda, todavia, freqüentava, com a mãe, a venda. E entendeu o jogo: seu Maciel ralhava com ela em público. Ignorava. Passava adiante. Mas só, era diferente. Normal vê-la aparecer à porta da loja, espreitando. Se cheia, dava meia volta ou sentava na escada, brincando os dedos; se vazia, pulava —só por brincar— os degraus maiores e achegava-se à saca dos confeitos. Os olhos ignoravam a presença do dono. As mãos, enfiadas até embaixo, jogavam balas pro ar. Umas caiam no chão. Chateava-se. Tinha que quebrar os joelhos, procurar nos cantos, devolvê-las à saca. O galego, de canto de olho, observava. Não podia, e entendeu logo, permanecer muito tempo naquilo. Ele ralhava. Era escolher e sair pulando os degraus de volta. Amerinda, no início, aparecia na porta, devolvendo. Mas Maciel confirmava o presente, com a cabeça.

O governo de Canduraria, por essa época, iniciava campanha de erradicação do sarampo. Uma praga: desesperou muitas mães. E Maciel só soube porque Andira Colatra passou por lá, para comprar peça de carne-seca e querosene, de lamparina. A menina de cama, três dias, e Amerinda doida. Metade dos conhecidos já tinham ido fazer a visita. — O senhor não vai, seu Maciel? — Coisa pouca, de criança. Não vale perder tempo. Já já tá aí, correndo pedras, chupando confeitos. — Sei não… A bichinha vai mal… Quanto devo?

Dia seguinte, foi o Armandinho: queria fumo-de-rolo, de cachimbo. — A pequena vai mal. À tarde, antes das seis, Iolanda: — Dá dó ver aquela mulher, forte como só, consumir-se. Maciel não se conteve, explodiu em calado, de si para si, com rusga na cara: — Vão para o Diabo todos vocês! Não assumo papel que não tenho. Pros diabos! Depois, deixado para fechar as portas e recolher-se à conferência do dia, caiu em si: “Vou, como todos, porque conheço. Só por isso!”. Foi.

Na casa abriram caminho e Amerinda, com os olhos úmidos, segurou-lhe a mão e o conduziu para onde deitava Janúzia. Pálida, pele curtida no sarampo, a menina arquejava respiração miúda. As pernas, finas de cortar coração, dançavam dentro do vestido. Maciel hesitou no passo seguinte. A menina não o reconheceu. Estava na passagem… A respiração decaia. Amerinda ajoelhou-se com vela na mão, em transe. Iolanda, e outras mulheres cantando novena, em reza baixa, encomendavam-na. Os homens seguravam os chapéus, entristecidos. Armandinho chorava. Maciel sentiu a mão tremer. A garganta entravava no seco. Não suportou. Virou-se para sair, e parou no meio do caminho. Sensação de perda… Carinho não declarado. Tempo ido, sem reparação. Lembrou-se dos saltos nos degraus da loja, das mãos fininhas enfiadas nos doces… Do sorriso tímido, de cumplicidade… Voltou e, com dor no peito, deixou cair na cabeceira da cama alguns confeitos de coco, que ela tanto gostava. Janúzia despedia-se, alheia a tudo, e via em sua última lembrança o seu Maciel, com sorriso no rosto, assentir com a cabeça. Então soube, feliz, que ele nunca mais ralharia com ela.

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One Comment leave one →
  1. novembro 10, 2010 10:44 pm

    Maravilhoso, seu danado. Acabei de ler, com o olho cheio d’água aqui. Beijo

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