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Perguntas de um criacionista aos novos ateus

outubro 26, 2010

Tava lá no Common Sense Atheism, do Luke Muehlhauser, blog altamente recomendável para as pessoas interessadas nos assuntos filosóficos ligados à religião: apareceu um defensor do Design Inteligente propondo algo entre um levantamento e um desafio ao “Novos Ateus”. Ele diz que quer somente saber o que esse grupo pensa, mas é claro que tem um certo ar de pegadinha. Em todo caso, resolvi morder a isca e jogar aqui para discussão, inclusive por teístas, já que os posts anteriores sobre metafísica bombaram e essas questões podem render uma boa conversa de bar. Bem, as questões são:

  1. Por quê há algo [ao invés do nada – LC]?
  2. O que causou o Universo?
  3. Por quê há regularidade (leis) na natureza?
  4. Das quatro causas na natureza propostas por Aristóteles, quais delas são reais? Causas finais existem?
  5. Por quê temos experiência subjetiva e não somente uma existência objetiva?
  6. Por quê a mente humana é intencional, no sentido técnico filosófico de ser sobre algo? Como os estados mentais podem ser sobre algo?
  7. A Lei Moral existe em si mesma ou é um artefato da natureza (seleção natural etc.)?
  8. Por quê há o Mal?

De cara, antes de entrar no mérito de cada questão, é preciso fazer uns comentários gerais:

Primeiro, é preciso lembrar que o ônus da prova ainda é do teísta, que é quem faz a afirmação nada trivial de que existe um ser onipotente, onisciente e cuja infinita bondade é bem esquisita. A falta de respostas a essas questões não constitui uma evidência anti-ateísta. Um cientista sempre pode responder como o Dawkins às afirmações de que há mais entre o céu e a terra do que a ciência sabe: “Sim, mas estamos trabalhando nisso”

Segundo, ligado a isso está o fato de que a resposta teísta é em muitos casos obviamente mais fácil. Enquanto que uma resposta naturalista completa aos problemas da mente constitui um projeto de pesquisa grandioso, complicado, digno de render centenas de milhares de papers, horas de discussão em congressos e consumir milhares de hectolitros de café, a resposta teísta apela pro shazam divino. Claro que não responde absolutamente nada, mas tem uma vantagem evidente de marketing e aceitabilidade pela mente preguiçosa.

Terceiro, não tem como existir um corpo de doutrina unificado e determinado caracterizando o pensamento ateísta. Isso porque, para começar, o ateísmo se define negativamente em relação a uma determinada doutrina e olha aí o problema dos predicados negativos novamente. Depois porque a unidade da doutrina religiosa foi forjada durante séculos com o dedicado emprego da fogueira como método de argumentação. Livre dessa filiação a um dogma, o ateísmo pode cultivar o dissenso.

Bem, dou meus pitacos sobre as questões só para instigar a discussão.

1. Por quê há algo [ao invés do nada]? Pergunta safadinha que Heidegger tirou da buraco onde devia ter ficado. Como entender a alternativa? O que é esse nada total contra o qual o ser é contraposto? Essa pergunta está longe de servir como isca teísta, porque Deus obviamente é algo e a pergunta é muito mais forte do que “por quê existe o Universo físico?”, à qual o teísta correria contentinho para responder “porque Deus quis”. E, mesmo se suprimíssemos toda a matéria do Universo, ainda sobraria o espaço-tempo, claro, a depender da sua concepção a respeito do espaço e tempo. Falar desse nada é falar não só de um contêiner vazio, mas da inexistência do próprio contêiner. Parece um dos casos mais claros em que a pergunta vai totalmente além de qualquer instrumental conceitual que possamos usar para respondê-la.

2. O que causou o Universo? Maravilhoso par para aquele exemplo batido em aula de lógica: “você já parou de bater na sua mulher?”. Quem disse que o Universo tem que ter tido uma causa? Uma ótima resposta que vi a respeito da premissa “tudo o que começa a existir tem uma causa” na versão do Argumento Cosmológico proposta por William Craig é a de que este princípio só valeria para os processos físicos dentro do Universo, nos quais todo o vir-a-ser no fundo é alteração de estados da matéria ou energia, não havendo, na verdade, nenhuma criação. (Hm, acho que essa idéia já estava lá no Kant, na Analítica dos Princípios, mas não vou checar agora exatamente onde porque estou com fome.) Assim, o princípio não valeria para o próprio Universo como um todo ou para a criação ex nihilo da matéria/energia.

3. Por quê há regularidade (leis) na natureza? Resposta do Kant: porque senão eu não conseguiria sequer dizer “eu penso”, não conseguiríamos sequer colocar a questão cética. Uma versão light da resposta transcendental é a que apela ao Princípio Antrópico e diz: em um Universo sem leis seria impossível a formação de seres que pensassem nisso, portanto nosso Universo, na medida em que contém alguém perdendo seu tempo com esse assunto, tem que ser um Universo com leis… Mas isso só provaria que a regularidade é a priori no sentido do Kaplan, isto é, verdadeira em todo contexto de asserção, como a frase “eu penso”, mas nada diz se é necessária ou contingente. Outra saída anti-realista seria dizer que a própria noção de lei natural é, pelo menos em parte, uma construção teórica blá blá blá. Falando de um ponto de vista realista não sei muito qual seria a resposta. Se leis naturais puderem ser interpretadas como o caso das espécies naturais e se Kripke está certo, elas seriam metafisicamente necessárias. O caso de uma regularidade importante, a seta do tempo, daria discussão suficiente para livros. Ia dar um chute aqui, mas correria o risco de sair demais do assunto.

4. Das quatro causas na natureza propostas por Aristóteles, quais delas são reais? Causas finais existem? Putz. Sério? Aristóteles? Bem, vamos lá. Em um sentido trivial, as coisas possuem matéria e essa matéria possui uma certa organização, então, nesse sentido trivial, tudo bem com as causas material e formal. Mas a causa formal para Aristóteles vai além disso e aí a gente cai na discussão sobre existe essências ou não. Sou anti-essencialista, mas ando na contramão hoje em dia. Gosto particularmente do par matéria x forma aristotélico para dizer como a filosofia da mente dele era interessantemente atual: a mente, como forma, era somente uma organização da matéria, um estado particular da matéria, e não existiria separadamente. Mas, claro que não vou utilizar esses conceitos para valer hoje em dia. Causa eficiente é uma confusão. Para simplificar a resposta, acho que depois de Hume não dá para aceitar causação à moda aristotélica. E quanto à causa final, que é a pegadinha mesmo do criacionista, obviamente existe no comportamento de determinados animais, como nós, mas certamente não na natureza. Darwin mostrou definitivamente como explicar a complexidade da vida por um processo mecânico.

(Isso tá cansando…Vou encurtar as respostas e dar a primeira que vier à cabeça que for alternativa à explicação mágica criacionista)

5. Por quê temos uma experiência subjetiva e não meramente objetiva? O que seria experiência meramente objetiva? Como separar a noção de experiência de algum traço de subjetividade? Bem, em todo caso, uma resposta curta e grossa seria: autoconsciência é um ótimo mecanismo para reprogramar o comportamento animal em tempo real e, portanto, uma incrível vantagem evolutiva.

6. Por quê a mente humana é intencional? Difícil imaginar como poderia ser diferente, mas uma resposta interessante está numa leitura da Refutação do Idealismo da CRP à luz do argumento da linguagem privada do Wittgenstein, era algo do tipo a mente precisa da referência aos objetos externos como condição para a organização da própria experiência interna. A referência da consciência e da linguagem ao mundo externo seria mais básica do que o discurso sobre o interno.

7. A Lei Moral existe em si mesma ou é um artefato da natureza? Existir em si mesma me parece ridículo, porque não sei se tem como falar de bem e mal independentemente dos sujeitos que realizam ou sofrem as ações que avaliamos moralmente. Acredito que o sentimento moral, o nosso impulso para agir de uma certa maneira e se indignar com determinadas ações, bem como a razão prática, o cálculo sobre o melhor curso de ação, tem em grande parte uma base biológica, como já mostraram estudos na ecologia comportamental, como os do Dawkins e do de Waal. Não quer dizer que a maneira como esse comportamento foi moldado seja inteiramente contingente e algumas regras inescapáveis não possam ser encontradas e fundamentadas de maneira abstrata. Se você é utilitarista, por exemplo, a teoria dos jogos permite justificar a priori muitas escolhas. O que eu quero dizer é que as regras podem ser justificáveis a priori sem que isso tenha a ver com uma Lei Moral absoluta existindo em si mesma.

8. Por quê há o Mal? Começa dependendo do que você quer dizer por Mal. Mas em um sentido básico e indisputado — sofrimento — existe porque a gente deseja, tem metas, e faltou combinar com a realidade. E isso deve ser bem básico no funcionamento da nossa mente. O pessoal da Computação Afetiva diz que a inteligência não pode ser modelada sem considerar o papel das emoções e imagino que isso tem a ver com a maneira como colocamos metas. Então, talvez qualquer ser mais inteligentinho sofre e isso é meio inescapável.

Bem, esse são meus chutes. Quais são os seus? Em que discordam? Eu teria um bocado ainda a falar sobre a qualidade das perguntas ou sobre uma ou outra delas, mas enfim, se você se animarem, deixamos para a discussão. Let the mess begin!

Outras discussões sobre as perguntas:
CommonsenseAtheism
Pharyngula
Sandwalk

Update: não tinha visto as respostas do próprio proponente do questionário, o gabarito da pegadinha. Pqp! Tomismo desavergonhado assim hoje em dia, meu filho? Fica aí se vocês também quiserem bater nele…

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6 Comentários leave one →
  1. luciano silva permalink
    outubro 27, 2010 4:46 am

    Na verdade, o malandro esta de falacia! Nao sao os ateus que sao novos, sao os mesmo de sempre com as mesmas questoes de sempre. Quem na verdade e neo-alguma coisa e o criacionista, pois todos que vieram antes dele fracasaram em tentar provar Deus como existente ou, no minimo, como objeto de conhecimento… sera que este malandro nunca ouviu falar de Guilherme de Okham e do fim do frankenstein medieval (a unidade fe e razao)?

    ps: meu teclado ficou louco e nao esta respeitando as normas de acentuaçao!

  2. outubro 27, 2010 12:00 pm

    Resolvido o problema do teclado, vamos as “polêmicas”!
    Resposta bem homorada a provocação do criacionista!

    1. Por quê há algo [ao invés do nada – LC]? Esta questão parte do pressuposto de que há um consenso entre as partes de que existe alguma coisa (o que rigorosamente não é óbvio!, isto é, carece de prova); só depois de resolvido esse ponto, a questão poderia ser levantada! Para facilitar a vida do sr. “causa primeira”, vamos assumir a existência de algo; feito isso, teríamos que responder o porquê dessa existência, ou a causa dessa existência. Minha resposta é: esse algo que existe foi criado, produzido, causado por uma poder supremo que não é, por definição, causado por nenhum outro poder. Hora de nomear esse poder supremo: Bob Esponja, que eu denomino como causa de si, caracterizado como o maior saber, poder e presença. Daí, segue-se as respostas padrão oferecidas pelo sr. causa primeira… por exemplo, 2. O que causou o Universo?- Bob Esponja, e assim por diante. Agora que entra a parte engraçada: minhas respostas seguem a mesma estrutura das respostas apresentadas pelo criacionista, então, qual delas é a verdadeira? Em outras palavras, quem existe: Deus ou Bob Esponja? Diz aí, seu Leo! rsrsrs

    • Leonardo Cisneiros permalink*
      outubro 27, 2010 12:47 pm

      Mas ao colocar a primeira pergunta assim ele se deu muito mal. Deus ou Bob Esponja são algo, portanto não podem ser a resposta à questão! Feito eu falei lá no comentário ao teu texto: a questão “por quê ou o que causou Deus?” não é de todo absurda, porque se é para admitir uma exceção à regra “tudo tem uma causa”, o próprio Universo poderia sê-la. Em todo caso, algumas questões são interessantes, bem no limite, e dão uma discussão decente se neguinho não quiser resolver as coisas com o shazam do papai do céu. A #3 mesmo leva a uma discussão legal: é possível um universo sem nenhuma lei natural?

  3. luciano silva permalink
    outubro 28, 2010 2:45 am

    Concordo, Leo: as questões são boas e dão muito pano pra manga! Mas é claro que todas elas, em maior ou menor grau, são colocdas pelo sr. causa primeira com um único objetivo: refutar qualquer resposta que não seja, ou esteja apoiada, no criacionismo. Creio que ele vê uma lógica perpassando por elas… entretanto, quando analisadas sem preconceitos e individualmente, podem fornecer ótimas leituras metafisicas, ou não! rssrs Eu vou pelo lado “ou não”, isto é, para a questão “é possível um universo sem nenhuma lei natural?”, só para facilitar, vou de Kant: é impossível para o sujeito do conhecimento encontrar alguma lei na natureza, considerada nela mesma, que não tenha vindo das formas a priori do entendimento… em outras palavras, se existem leis naturais (i.é, próprias a natureza) elas não podem ser conhecidas, nelas mesmas, pelo sujeito do conhecimento!

    respostas possíveis, isto é, não contraditórias, (seguindo a dialética trascendental rsrsrs): 1) SIM, é possível um universo sem nenhuma lei natural, e 2) Não é possível um universo sem nenhuma lei natural…

    Ps: essa minha resposta, utilizando Kant como argumento de autoridade, é pertinente ou estou usando o santo nome do “virgenzão de Königsberg” (ótima imagem, que é sua por sinal) em vão?

    • Leonardo Cisneiros permalink*
      outubro 28, 2010 12:31 pm

      Ah, claro que é pegadinha. Como eu disse: ele coloca questões muito fundamentais ou talvez além do limite da inteligibilidade para deixar o filósofo ou cientista honesto na dificuldade que a resposta honesta tem e vir em seguida oferecer a resposta simples, direta e altamente digerível do teísmo. Óbvio que para alguém mais esperto isso não responde nada. A resposta teísta é um “abracadabra”.
      Quanto à resposta do virgenzão acho que é essa mesmo. E, caso alguém perguntasse “tá, mas abstraindo o papel do sujeito cognoscente, é possível um universo sem leis?”, ele poderia ir mais adiante e dizer: leis são necessariamente construtos mentais, é a gente que vê regularidade na natureza, mas não é necessariamente assim. Por um lado não tem que ser assim, por outro é ininteligível que não seja assim, como na tua resposta dialética. Mas, sei lá, no contexto da filosofia de hoje, tão fortemente realista, talvez dê para insistir um pouco mais na pergunta, embora seja até difícil representar corretamente o que seria um universo realmente caótico.

  4. Markos Klemz permalink
    outubro 28, 2010 12:07 pm

    Difícil sustentar uma visão realista da regularidade das leis naturais sem a noção de causa final, que aliás foi introduzida para isso mesmo. Causa final é a tendência que uma coisa tem a se comportar de um determinado modo em virtude de pertencer a um determinado tipo ou apresentar certas propriedades, isto é, causa final e formal são aspectos complementares e interdependentes de um mesmo processo causal. Assim, uma pedra de diamante tende a resistir a uma certa quantidade de pressão em virtude de sua dureza, ou tende a se acelerar numa velocidade x ao ser submetida a uma gravidade y em virtude apresentar â massa que tem. Uma visão altamente deflacionária da noção de causa final? Não, apenas a velha senhora de sempre despida de algumas tralhas filosoficamente irrelevantes da física aristotélica, como a noção de lugar natural. Daí a realizar uma prova teleológica na existência de Deus são outros quinhentos, claro. Mas é bom lembrar que prova teleológica não é o mesmo que argumento do desígnio, o qual aliás, nunca vi ser defendido por nenhum filósofo de respeito, fora talvez o Berkeley (na verdade, acho que estou sendo injusto com ele). É um boneco de palha. A não ser é claro, que se resolva considerar provas teleológicas uma versão altamente refinada do argumento do desígnio, ok, é possível forçar uma barra nesse sentido.

    Claro que sempre se pode abandonar o realismo e virar idealista. Outra alternativa seria alguma versão de platonismo de leis naturais. Mas me parece tiro de canhão para matar mosca, assim como a estapafúrdia estratégia de inventar que existência não é uma perfeição para se livrar do argumento ontológico… como se ele não tivesse defeitos muito piores e mais evidentes!
    Discordo também de todas as considerações sobre o argumento cosmológico, mas confesso que tenho um pouquinho de preguiça de entrar em discussões conceitualmente refinadas via internet. É um defeito, não me orgulho disso, mas fazer o quê? De todo modo, tive a impressão de que os seguintes elementos foram desconsiderados: a noção de causa primeira é perfeitamente compatível com o regresso ao infinito na ordem das causas segundas (esse é o ponto menos relevante); sua introdução visa a fundamentar a ordenação que subjaz a processos causais; a relação entre causa primeira e causas segundas é usualmente pensada como sendo direta, ou seja, a causa primeira causa cada uma das causas segundas, e não apenas a totalidade dessas. A causalidade segunda não se torna supérflua por conta disso pois responde pela sucessividade da duração de seus resultados.

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