Skip to content

Para o bem das esquerdas, salvem a direita!

novembro 4, 2010

Uma análise através de uma teoria dos jogos fuleirinha da situação da oposição depois da bagaceira que foi a campanha do Serra

A Vivi já falou no seu post sobre o dia seguinte das eleições sobre a insistência do Serra em não se recolher de volta à cripta de onde saiu e continuar a assombrar o PSDB com seu projeto pessoal de conquistar a presidência a qualquer custo. Eu já linkei aqui um ótimo texto sobre a necessidade urgente de o PSDB se refundar. E eu, apesar de continuar discordando do projeto do PSDB em sua forma pura, por exemplo, na limitação do papel do Estado na economia, torço para que essa refundação ocorra. E é isso que o PT devia fazer e estimular também, principalmente depois das lições dessa última eleição. Comecei a pensar nisso, na verdade, quando, no primeiro turno, Marina apareceu com a sua utopia de governar com o apoio dos bons do PT e do PSDB, eliminando a necessidade dos partidos fisiológicos como o DEM e o PMDB. Em tese parece uma ótima idéia, mesmo desconsiderando completamente que ela poderia servir como um dos exemplos mais delirantes de wishful thinking. Mas, comentei com um amigo que à época estava tentado a votar em Marina (e foi demovido pelo meu argumento de que seu ponto de vista religioso poderia obstacular avanços científicos como os das células-tronco), na verdade é bom que PT e PSDB não se aliem, porque assim a polaridade política ficaria dominada por dois partidos razoáveis, que compartilham muitos valores importantes e cujas divergências não chegariam a representar uma guinada radical no rumo em que o Brasil está. Claro, isso foi antes do primeiro turno, portanto bem antes da famigerado pentecostes tucano…

Minhas leituras de Teoria dos Jogos ainda são muito fraquinhas, mas em tese o que aconteceu naquele momento da virada religiosa da campanha foi algo similar ao que acontece no dilema do prisioneiro: os dois lados ficariam melhor se o tema do aborto e outros temas conservadores não entrassem em discussão, mas, a partir do momento em que esses temas se mostraram capazes de decidir o jogo, a tentação de explorá-los tornou-se forte demais, mesmo implicando em um certo prejuízo na pureza programática inicial do partido que a adotasse. É claro que há uma certa assimetria aí e era mais fácil para o PSDB-DEM cair nessa tentação do que para o PT, mas, ignorando isso e supondo que a tentação fosse simétrica, o fato é que quem caísse nela primeiro teria uma vantagem e ao outro lado só restaria tentar eliminar essa vantagem cedendo à tentação também, num resultado que representa um prejuízo para ambas as partes em relação à cooperação para que a eleição chegasse ao fim sem que esse tema se tornasse central. O mais ridículo é que nesse jogo abstrato, se ambas partes cedem igualmente e recebem o benefício disso igualmente, o desempate continua sendo pelas vantagens anteriores a essa jogada. Quer dizer, se fosse somente uma questão de assinar um documento e receber os votos correspondentes automaticamente e ambos os lados fizessem isso, a decisão dos religiosos passaria a ser motivada pelo posicionamento em relação aos outros temas, já que, quanto a esse, há empate. Assim, a terceira parte (na verdade, é mais um jogo com mais de dois jogadores do que um dilema do prisioneiro), fora da disputa, ganharia com qualquer resultado e as duas partes em disputa perdem igualmente em relação aos seus programas iniciais. De forma mais realista, com um lado cedendo mais que o outro, o risco é o de, ao invés de focarmos a disputa numa divergência de perspectiva (liberalismo x intervencionismo) dentro de um consenso sólido sobre questões básicas (investimento no social, progressismo em relação às questões importantes para os religiosos..), a briga virar uma luta tudo-ou-nada com todo o progressismo de um lado e tudo que há de retrógrado no outro, rumo em que está a discussão nos EUA. O PT e o PSDB deveriam ter jogado um jogo de cooperação, de soma não-zero, mas ficamos perto de descambar para o jogo de soma zero, o jogo do tudo ou nada. Quando Lula disse que era preciso eliminar o DEM (pelo voto, é claro) tinha razão, mas faltou dizer que oposição ele quer. O PT precisa, de alguma forma, cultivar a sua oposição e o PSDB precisa arrumar uma aposentadoria compulsória para o Serra. Por sorte, já tem gente com juízo falando nisso. Não vou votar na oposição, mas torço pela sua recuperação.

Obs.: Em um ecossistema estável, há uma co-evolução das diversas espécies que interagem entre si, inclusive de predadores e presas. O jogo de coalisão inteligente toma cuidado para fazer a oposição prevalente evoluir junto e domestica setores potencialmente complicados. Pensando assim, um dos elementos mais surpreendentes pra mim dessa discussão destrambelhada do segundo turno foi a “domesticação” da IURD na discussão do aborto. O interesse político da galerinha linda da IURD acabou levando a um abrandamento do seu discurso religioso e isso é ótimo. Que isso continue.

Anúncios
No comments yet

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: