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Internets: novo espaço público ou cada um no seu quadrado?

novembro 20, 2010

No #debatenokia organizado pela querida Clarissa em Recife, no começo do mês, boa parte da diversão, como tinha que ser num evento voltado à tecnologia, estava na troca de mensagens pelo twitter (comigo avacalhando geral) e alguns SMS. Acabaram aparecendo muitas questões interessantes sobre arte e tecnologia que valeriam um post inteiro mas uma discussão que eu queria ter transformado em um post há mais tempo e que tem a ver com o post anterior sobre ciberdemocracia surgiu nessa troca de tweets em resposta à Cla (_amora_):

http://twitter.com/#!/_amora_/status/29506546613

Como eu falei no outro post, antes das últimas eleições talvez eu fosse mais otimista quanto à força da tecnologia para nos levar inexoravelmente rumo a um maior consenso, mas o alerta que eu puxei no tweet de resposta era uma preocupação sobre se o mundo virtual também não permitia a criação de guetos que não se comunicam entre si. A internet aumenta o acesso à informação e à pluralidade de informação mas por si só não nos leva a nos abrirmos para essa pluralidade. Essa facilidade de disseminar informação também serviu para os emails terroristas contra a Dilma, serviu para a Mayara Petruso e sua gangue virtual, serve para os evangélicos se articularem contra projetos como o que criminaliza a homofobia ou o que flexibiliza a permissão legal para o aborto. E tem um fator adicional nesse processo que eu quero há tempos dissecar num post próprio: a informação movida pelo medo, pela desrazão, que apela ao lado mais reptílico do nosso cérebro, se impõe a nós e se espalha mais rápido do que idéias baseadas em uma argumentação sólida e detalhada. Se idéias são replicadores numa luta darwiniana para dominar o ecossistema, como Dawkins descreveu ao criar a idéia de meme, idéias que apelam aos nossos instintos e que convencem imediatamente, mal passando pela consciência, têm uma vantagem evidente. Por isso, segundo Dawkins, a religião funciona um vírus.

Bem, mas esse post era só para [testar esse esqueminha de incorporar tweets no post e] dizer que, como tudo nesse mundo, a idéia do meu tweet esperadamente não era original é já tinha um nome e um artigo a respeito: ciberbalcanização, em homenagem àquela região menor que a Bahia onde tem tanta confusão. O objetivo do artigo é contrapor à idéia de uma Aldeia Global formada pelas novas tecnologias de informação e comunicação o risco de uma balcanização, isto é, da criação de grupos isolados que reforçam sua identidade por contraposição aos outros grupos. O argumento geral é que a TI só acelera a satisfação das preferências de interação social e a tendência é o cabra consumir mais do que ele já gosta ao invés de ampliar suas interações. E, nostra culpa, isso aconteceu um bocado nas eleições: faça um retrospecto do que você leu, quem você seguiu e retuitou e note o quanto você leu sobre o que você já concordava em comparação com o que foi dito em defesa do outro candidato. E nos outros assuntos também a tendência seria rumo a uma superespecialização como a que se tem na ciência, com o risco de perder uma “cross-pollination” entre áreas diferentes que levou a tantas descobertas revolucionárias.

Mas os autores não querem ser catastrofistas. No fundo o problema está nas preferências do usuário, pois como dizem, “tecnologias aperfeiçoadas aumentaram a velocidade de transmissão de informação e a largura de banda através de todas as distâncias exceto as últimas 12 polegadas – entre o monitor e o cérebro” e, como também enfatizam, um interesse pela diversidade também é mais satisfeito pelas novas tecnologias, agindo numa direção inversa à da balcanização. De fato, hoje o custo de experimentar a diversidade é menor: você pode sem custo ter uma idéia de como é rock do Kazaquistão ou procurar saber como parece um haikai em polonês (pierwszy cieply wiatr/wraca wspomnienie domu/i usmiech matki), ou, com uma ajudinha do governo, ler artigos caros de qualquer área, buscando a tal cross-pollination científica, e assim por diante. Quando o custo da informação era maior e eu tinha que fazer escolhas de como aplicar melhor o meu dinheiro aí sim a tendência era que eu focasse nas minhas preferências, naquilo que já sei que gosto e/ou que funciona. Mas, no final das contas, tudo acaba por depender do cabra querer procurar a diversidade. A conclusão meio que pode ser: quem já era balcanizado, incapaz de consenso e cabeça fechada vai ficar ainda mais, vai se fechar ainda mais em um gueto e quem quer aumentar o seu conhecimento vai ter mais oportunidades e vai globalizar sua mente cada vez mais. Quem é inteligente vai ficar mais inteligente, quem é tapado vai ficar mais tapado. Maravilha..rs

Bem, todo bom filósofo é um troll profissional, vide Sócrates enchendo o saco em toda festinha que ele ia, então é por isso que essa crítica ao oba-oba dos ciberotimistas é interessante. Não é pra ser apocalíptico. A cyberbalcanização não é um destino inevitável, mas pelo menos está ali como um risco real, que serve para lembrar que o consenso, o progresso, o triunfo da democracia e das Luzes não são um dado automático da tecnologia e sim o resultado de um esforço. Como eu disse no outro post, o espaço público nas internets é um Ideal (® Kant) e  o resultado de uma construção tanto quanto em qualquer outro meio. A tecnologia pode espertamente nos ajudar nisso, com mecanismos de auto-organização e regulação como o sistema de moderação do Slashdot e isso é um bom assunto para outros posts. Mas, por enquanto, já dá para adotar uma sugestão ótima e de baixo custo a partir de uma afirmação do artigo: “Corollary 4 — With greater connectivity, a taste for randomness or diversity unbalkanizes interaction”. Vamos criar o movimento Leia todo dia um artigo aleatório da Wikipédia! ou Leia todo um dia um site aleatório! ou ouça música que você nunca ouviu, num shuffle cósmico, se bem que não achei nenhum site que realmente faça isso…

(Poxa, o site aleatório que caiu pra mim foi esse: http://www.kerneltrap.org/ Eu bem que tentei fugir da balcanização, mas assim não dá…)

 

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