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BECO 3’s REPORT: Mapa da violência no Rio – De que lado está o Estado?!

novembro 30, 2010

Galera, parei aqui no Beco 3 para degustar uma pinga acompanhada de uma porção de “salamina” e fazer um desabafo sobre a guerra civil no Rio!

Que semana punk! Terrorismo urbano, helicóptros por toda parte, blindados na rua, cenas de guerra na cidade maravilhosa! É tudo muito estranho, acho que nunca tivemos a oportunidade de acompanhar as ações da polícia e dos traficantes de tão perto. Ao mesmo tempo, tantas informações e imagens transmitidas em tempo real não esclarecem que diabos está acontecendo!

O problema é que não estamos recebendo grande parte das informações relevantes. Esse bombardeio de notícias, as cenas violentas e o discurso maniqueísta da mídia tem servido para gerar desorientação e sentimentos contraditórios. Quero muito acreditar que é possível mudar a realidade do Rio. Até acho que alguma coisa vai mudar mesmo depois dessas ocupações, só não sei se será para melhor. Passei os últimos dias me informando sobre a ocupação dos morros e a política de segurança do Estado nos últimos anos e me deparei com dados desconcertantes!

Atualmente, as 94 favelas da cidade do Rio de Janeiro são controladas pelos seguintes grupos: Comando Vermelho (27), Amigos dos Amigos (16), Terceiro Comando Puro (16), Milícias (18), UPPs (15, incluindo as 2 ocupações do Complexo da Penha e do Alemão na última semana).

Um breve histórico
O Comando Vermelho (CV) surgiu em 1979 e se tornou a facção do tráfico mais poderosa nos anos 90, apesar de ter perdido territórios para a sua rival Terceiro Comando Puro (TCP) nos anos 80. O TCP é fruto de um racha violento entre os líderes do CV. A facção Amigos dos Amigos (ADA) se formou nos presídios durante os anos 1994 a 1998 e se tornou um grande aliado do TCP. O objetivo de ambos é diminuir o controle do CV. As mílicias cariocas surgiram na década de 70 e são formadas por bombeiros e policiais (ativos ou aposentados) que atuam em conjunto com lideranças das comunidades, o sindicato dos guardadores de carros, a guarda municipal e políticos. A primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) foi inaugurada em dezembro de 2008 no morro Dona Marta em Botafogo. As UPPs fazem parte do programa de segurança pública do governo Sérgio Cabral. Este é o conceito de UPP apresentado no site oficial (http://upprj.com/wp/?page_id=20):
“A Unidade de Polícia Pacificadora é um novo modelo de Segurança Pública e de policiamento que
promove a aproximação entre a população e a polícia, aliada ao fortalecimento de políticas sociais nas comunidades”.

Pois é, o modelo das UPPs é o resultado da atuação truculenta do governador Sérgio Cabral, contradizendo a sua definição.

Alguns exemplos da atuação do Governo Cabral
Não é a primeira vez que a política de segurança do secretário Beltrame, o Complexo do Alemão e da Penha ocupam as primeiras páginas do noticiário. O ano de 2007 foi marcado por ocupações bem diferentes das que acompanhamos nos últimos dias. Em maio, essas áreas foram ocupadas por policiais civis, militares e soldados da Força Nacional com o objetivo de viabilizar as obras do PAC, garantir a segurança dos Jogos Pan-Americanos e a apreensão de armas, drogas e traficantes. No dia 27 de junho, os jornais noticiaram a maior operação realizada no Complexo do Alemão e da Penha motivada pela busca aos responsáveis pelo assassinato de dois policiais em Oswaldo Cruz. Nesta data, 19 pessoas morreram com uma média de 3,84 tiros cada. A ONU enviou um relator especializado em execuções para visitar a região e analisar estas mortes. O relatório concluiu que as mortes foram de fato execuções. A OAB divulgou em nota oficial que 11 entre as 19 pessoas mortas não tinham nenhuma relação com o tráfico. O saldo final da ocupação foram 44 mortes entre os dias 2 de maio até 19 de julho. Em reposta, Beltrame desqualificou o relatório da ONU apontando falhas técnicas e afirmando que os planos de ocupação foram feitos a partir de dados reunidos por informantes e fotos aéreas da região com uma antecedência de 2 meses. Ele concluiu que a operação foi bem sucedida, mas admitiu que durante a ocupação apenas o cerco aos acessos dos complexos foram mantidos, mas os traficantes ainda dominavam a região.

No ano de 2009, os traficantes do Morro de São João, integrantes do CV, e os traficantes do Morro dos Macacos, integrantes do ADA, se enfrentaram por mais de 6 meses sem qualquer intervenção policial. Há relatos de pelo menos uma tentativa de invasão ao Morro São João e duas tentativas de invasão ao Morro dos Macacos. No mês de outubro ocorreu a segunda tentativa que resultou na morte de 10 pessoas e no incêndio de 8 ônibus. Só então a Polícia Militar (PM) entrou no confronto e o caso ganhou destaque na mídia após a derrubada de um helicóptero da PM e mais 17 mortes em apenas um final de semana.

Nesse mesmo ano, houve também uma disputa violenta entre os traficantes da ADA e do TCP na Vila Vintém. Segundo Maurício Campos, integrante da Rede de Comunidades, 30 pessoas morreram nesse confronto que não teve interferência da polícia e nem recebeu atenção da mídia.

Diversas entidades de direitos humanos e movimentos contra a violência consideram que a volta dos confrontos entre as facções criminosas no Rio de Janeiro é uma consequência da estratégia equivocada e truculenta da política de segurança de Beltrame. Ele assumiu a secretaria de segurança pública em 2007 e adotou como prioridade a desarticulação do Comando Vermelho por esta ser a maior facção criminosa. Me parece que esta estratégia está desequilibrando o tráfico e estimulando a guerra entre as facções. A obrigação do Estado é combater todas as facções criminosas, do contrário, o governo assume o papel de mais uma facção na disputa de poder. Concentrar os esforços da segurança do Estado em combates ao tráfico de drogas e armas nas comunidades pobres não tem sido muito eficiente. Talvez resultados mais eficazes sejam obtidos se forem combatidos os segmentos os segmentos corruptos das polícias e os segmentos responsáveis pelo fluxo internacional de armas e drogas. Essas críticas são respaldadas pela distribuição das UPPs e a estatística dos crimes cometidos na cidade. Dá só uma olhada:

No site oficial das UPPs, mencionado acima, o Governo informa que “ao recuperar territórios ocupados há décadas por traficantes e, recentemente, por milicianos, as UPPs levam a paz às comunidades do Morro Santa Marta (Botafogo – Zona Sul); Cidade de Deus (Jacarepaguá – Zona Oeste), Jardim Batam (Realengo – Zona Oeste); Babilônia e Chapéu Mangueira (Leme – Zona Sul); Pavão-Pavãozinho e Cantagalo (Copacabana e Ipanema – Zona Sul); Tabajaras e Cabritos (Copacabana – Zona Sul); Providência (Centro); Borel (Tijuca – Zona Norte); Andaraí (Tijuca);  Formiga (Tijuca); Salgueiro (Tijuca); e Turano (Tijuca).”

Faltou incluir a UPP do Morro dos Macacos inaugurada hoje. Com esta UPP, o Estado passa a contar com 13 unidades, dentre elas, 11 UPPs foram instaladas em morros controlados pelo CV e as outras 2 foram instaladas em morros controlados ADA. E excluir os milicianos já que até o momento não há nenhuma UPP nos territórios das milícias. A distribuição das UPPs entre as 94 favelas é a seguinte: a Zona Norte possui 60 favelas e 8 UPPs, a Zona Oeste possui 20 favelas e 2 UPPs, a Zona Sul possui 14 favelas e 3 UPPs. Infelizmente, o site oficial não esclarece quais foram os critérios utilizados na escolha das localidades das UPPs e também não há nenhuma informação sobre o planejamento das próximas unidades. Mas, estes poucos dados indicam duas prioridades do governo: desarticular o CV e privilegiar a Zona Sul da cidade.

Consultei o Instituto de Segurança Pública (http://www.isp.rj.gov.br/Conteudo.asp?ident=150) e comparei os dados desde dezembro/2008 e verifiquei que tanta a incidência de crimes bem como as atividades policiais não sofreram alterações significativas desde a implementação das UPPs. Talvez os boatos sobre o aumento dos crimes na Baixada, Niterói e no interior não seja verdadeiros. Segundo as estatísticas, não houve aumento nas atividades criminosas nem policiais nessas áreas. Por outro lado, talvez seja o boato de que o tráfico de drogas continua no Dona Marta pode ser verdadeiro.

Será que o CV continua tão poderoso assim? Essa facção perdeu muitos territórios e boa parte dos seus líderes estão presos e mortos. Independente do poderio do CV, está claro que Beltrame precisa repensar as suas prioridades e combater os avanços das outras 3 facções criminosas que dominam diversas áreas da cidade. Por exemplo, todas as 7 favelas na região de Bangú são controladas pelas milícias, 6 entre as 11 favelas na Barra e Jacarepaguá são territórios do TCP, o Complexo da Maré é um verdadeiro inferno porque foi dividido entre o CV, o TCP e o ADA, o Vidigal e a Rocinha são domínios do APA.

Desde o domingo, dia 21, cerca de 102 veículos incendiados e diversas pessoas foram feridas nesses atentados. A polícia montou uma operação em represália à onda de crimes em diversas partes da cidade e concentrou a maior parte do seu contingente no Complexo da Penha e do Alemão.

A atuação da polícia resultou na apreensão de muitas armas, drogas, veículos e dinheiro do tráfico (Dinheiro mesmo foi apreendido na Vila Cruzeiro, já no Alemão…). Até agora foram encontrados 47 toneladas de maconha, cerca de de uma tonelada de cocaína e uma pequena quantidade de crack. Cadê o pó e o crack do Alemão? Segundo Beltrame, o Complexo do Alemão é o maior reduto do tráfico carioca e até agora só encontraram 230kg de cocaína lá.

Outra pergunta que não quer calar, cadê os traficantes? O ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, afirmou no RJ Tv que a secretaria de segurança sabia que os dutos de esgoto do Complexo do Alemão eram uma rota de fuga possível desde a operação realizada em 2007. É inegável que a polícia estava ciente disso, pois o próprio Rodrigo participou da operação de 2007. Então, o que será que aconteceu? Por que os traficantes não foram encontrados? Hoje cedo, fiquei chocada ao ouvir a notícia de que foi graças à denúncia de moradores que a polícia descobriu que traficantes tentariam fugir pela tubulação da rede de esgoto. Mesmo assim, apenas 8 criminosos foram pegos enquanto fugiam pelos bueiros. A polícia estimava a presença de 500 a 600 traficantes no Complexo do Alemão e entre o dia 21 até agora foram presas 123 pessoas, 130 foram detidas e 37 estão mortas.

Qual é a motivação desses atos de terrorismo por parte do tráfico? A hipótese de que esses ataques se devem à insatisfação com a instalação das UPPs virou uma certeza sem maiores evidências e não se discute mais esse assunto. A pergunta seguinte é em relação à autoria dos ataques. Outra hipótese assumida como certeza precipitadamente. A polícia se concentra nas comunidades dominadas pelo Comando Vermelho (CV), mas não há provas suficientes para garantir que esta facção é a única ou a principal responsável pelos caos na cidade. Atos de terrorismo urbano já foram praticados por outras facções. Na madrugada de 05 de fevereiro, 15 veículos foram incendiados em Ramos e 50 carros no pátio da delegacia de Roubos e Furtos em Irajá. A autoria desses atos foi atribuída às milícias da região que deixaram bilhetes condenando a instalação de UPPs. Porém, por alguma razão, as investigações policiais e a atenção da mídia durou poucos dias. A suspeita do acordo entre as facções rivais do Comando Vermelho e Amigos dos Amigos (ADA), reforça a suspeita de que o CV não está atuando sozinho. Corre também o boato de que o CV não é uma facção lá muito generosa ($$) com a polícia.

Enfim, que diabos está acontecendo nesta cidade? De que lado está o Estado? Tá rolando um acordo entre o Estado e algumas facções do tráfico? Isso já aconteceu em administrações anteriores. O Estado tá querendo “mostrar serviço” para as agências financiadoras e patrocinadores da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016? Alguma sugestão, galera?

Me sinto mal por colocar estas questões, quero acreditar que temos a chance de mudar a realidade do Rio de Janeiro. No fundo, não consigo deixar de acreditar que a cidade vai ficará um pouco mais segura de fato, mas tem tantas coisas sem explicação. Já passamos por tanta coisa aqui nesse Rio de “Janeura”, uma cidade que registra cerca de 17 homícidios/dia, por isso, é difícil cair no discurso maniqueísta da imprensa. Sabemos que muitos policiais estão na folha de pagamento do tráfico. Não tô esculachando o trabalho dos caras. Mas, não podemos negar que muitas informações estão sendo omitidas. Admiro o trabalho dos verdadeiros policiais! A maioria desses caras sai para trabalhar sem treinamento e armamento adequado, ganha em média R$ 900 por mês, tem que esconder sua farda para não sofrer represália do tráfico e/ou dos vizinhos. Bom, talvez seja cedo demais para entendernos a situação. De qualquer forma, no atual estado de coisas, qualquer apreensão de armas, drogas e prisão já é muita coisa!!

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2 Comentários leave one →
  1. luciano silva permalink
    novembro 30, 2010 4:02 pm

    otimo texto, Vivi. Nao sei, menina, mas temo que as respostas as suas duas ultimas questoes sejam todas SIM. O Estado, em parcerias com grupos ilegais, para fingir dominar o territorio, garantindo a “paz”, para potencializar o retorno turistico nas atividades esportivas que acontecerao…

  2. Luana permalink
    dezembro 15, 2010 1:50 am

    Minhas respostas as suas questões (na minha humilde opinião):
    -O que esta acontecendo no RJ (no Brasil e no Mundo) == o domínio egoísta do $ = e droga, arma, pirataria, entre outros do mesmo nível geram muito $.
    -De que lado esta o Estado == do lado do $$$$$ e do Poder (sempre foi assim…)
    -O Estado tá querendo “mostrar serviço” para as agências financiadoras e patrocinadores da Copa 2014 e das Olimpíadas 2016? == SIM, é claro, novamente o $.
    -Tá rolando um acordo entre o Estado e algumas facções do tráfico? == Sempre rolou, SEMPRE! ==
    -Alguma sugestão, galera? == Sim, acho eu que, qdo ocorrem fatos que abrem um pouco a cortina e mostram um pouco da VERDADE as perguntas já deviam ser diretas: Quem não pagou quem (ou pagou pouco)? Quem traiu quem? Quem quer o Poder atual de quem? Quem quer o $ de quem? Quem se juntou com quem? = perguntas estas que estão em seu texto…kkk
    Penso eu, que o Estado agora terminou de meter a mão em uma cumbuca da feia!!!!
    Pois, político na sua maioria é bandido (na minha opinião), mas bandido não é tudo igual não…..
    “Agora o bicho vai pegar” (não tão agora….mas que vai…vai….), pois eu acho que este SHOW vai custar caro (direta ou indiretamente).

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